Kit Covid: Médicos dizem sofrer ameaças para receitar remédios sem eficácia

Manaus|Am- Médicos da rede pública de saúde estão sofrendo pressões e ameaças de pacientes para que receitem um kit de medicamentos sem eficácia contra covid-19, com incentivo de parte da comunidade médica local, de autoridades e do Ministério da Saúde. Como noticiou hoje o Painel, da “Folha de S.Paulo”, o Ministério da Saúde enviou um ofício à Prefeitura de Manaus para difundir o chamado “tratamento precoce”, cuja eficácia é contestada pela Sociedade Brasileira de Infectologia.

Em relato, os profissionais de saúde dizem está passando por situações em que os pacientes insistiram, às vezes de maneira agressiva, para receber os medicamentos contraindicados. Os médicos contam, também, que os pacientes são incentivados por autoridades e até por integrantes de entidades médicas locais a denunciar no Conselho Regional de Medicina (CRM) e a processar na Justiça os profissionais que se recusarem a fazer a prescrição.

O entendimento, agora, é que o ofício do Ministério da Saúde transformou a pressão em obrigação. “Muitos colegas das Unidades Básicas de Saúde (UBS) agora sentem que estão colocando seus empregos em risco se não receitarem o kit covid ou hidroxicloroquina”, diz profissional de saúde sob condição de anonimato, por temer represálias.

A distribuição de “kit covid” agrava a situação do colapso na saúde pública do estado: “Os pacientes estão tomando os remédios sem eficácia em casa e, por acreditarem que estão se tratando, deixam de se preocupar com a saturação [de oxigênio] e acabam demorando para procurar um hospital.” Afirmam os profissionais. 

Dos remédios listados nos kits, apenas os antitérmicos comuns como dipirona e paracetamol de fato são indicados em casos leves de covid-19.

Medicamento do kit covid pode piorar quadro de paciente, diz médico

Alguns dos medicamentos promovidos pelo governo federal já vinham sendo distribuídos por prefeituras do Amazonas desde o ano passado. É o caso da prefeitura de Autazes, cujo “kit covid” incluía azitromicina, dipirona, prednisolona, omeprazol, AAS infantil, vitamina C e ivermectina (ver foto). O kit de Parintins era composto por azitromicina, ivermectina, prednisolona e paracetamol.

Em ofício enviado no final do ano passado ao Ministério Público Federal de Goiás, a Sociedade Brasileira de Infectologia apresentou uma longa lista de evidências provando que não existe “tratamento precoce” para covid-19 e que não se deve receitar azitromicina, prednisolona e invermectina para casos leves — porque não possuem eficácia e porque podem provocar efeitos indesejados no paciente.

“A prednisolona, um corticoide, é a que tem contraindicação mais grave. Em pacientes leves, ela aumenta a carga viral e o tempo de sintoma. Ela só é indicada para pacientes internados em estado grave que precisam de alto fluxo de oxigênio”, diz o infectologista Alexandre Naime Barbosa, da Universidade Estadual Paulista.

A outra droga contraindicada para casos leves de covid-19 é o antibiótico azitromicina, porque nesse estágio da doença não existe infecção bacteriana. O uso do antibiótico em pacientes leves pode inclusive levar ao desenvolvimento de resistência bacteriana.

O antiparasitário ivermectina, por sua vez, também já teve a eficácia contra covid-19 contestada por diversos estudos científicos.

O “kit covid”, portanto, não passa de um coquetel de efeito ilusório, mas que transmite aos pacientes a falsa sensação de segurança. Situação bizarra que pode ser resumida em uma frase contida no saquinho com remédios distribuídos pelo município de Autazes: “Vai ficar tudo bem.”

Fonte: https://noticias.uol.com.br/colunas/