1ª Vereadora travesti de Piracicaba é encontrada morta

A ex-vereadora Madalena Leite foi encontrada morta no início da noite desta quarta-feira (7) em Piracicaba (SP). Segundo as informações da Polícia Militar, o corpo foi encontrado na casa dela com sinais de violência. Madalena tinha 64 anos e se tornou a primeira travesti eleita vereadora na história da cidade.

Segundo a PM, Madalena foi encontrada por volta de meia-noite e meia no imóvel, no bairro Vila Sônia, com marcas de violência no rosto.

Segundo o boletim de ocorrência, um vizinho localizou o corpo no sofá da sala. Ele relatou aos policiais que tinha a chave do imóvel, já que sempre estava por ali, mas ao chegar na casa encontrou o portão da frente somente encostado. Em seguida, ele acionou a polícia.

O corpo foi encaminhado para o Instituto Médico Legal (IML). Ainda não há suspeitos para o crime. O caso foi registrado como homicídio e encaminhado para o Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) de Piracicaba.

1ª vereadora travesti de Piracicaba

Madalena foi eleita vereadora no pleito de 2012, quando recebeu 3.035 votos e teve o segundo melhor desempenho do PSDB nas eleições. À época, ela já somava 25 anos como líder comunitária e era considerada um ícone na cidade, chamando a atenção por andar pelas ruas usando roupas e acessórios femininos.

Madalena trabalhou desde a adolescência como cozinheira e faxineira em casas de família e repartições públicas. Como líder social, foi presidente do centro comunitário do bairro Boa Esperança e foi candidata a vereadora quatro vezes (1988, 2004 e 2008 e 2012), obtendo os votos suficientes para se eleger no último.

Madalena ficou famosa em Piracicaba pela irreverência e pelo visual: um homem negro de corpo esguio, com quase 1,80 metro de altura, que usava roupas femininas há mais de 40 anos. Ela não se prendia a etiquetas, sempre quis ser conhecida por seu trabalho comunitário, e resolveu usar terno na posse de vereadora.

O nome de batismo dela era Luiz Antônio Leite de Moura, mas ela já passou a ser chamada por Madalena quando tinha 15 anos, já assumido como homossexual. “Eu trabalhava de faxineira com a minha mãe em uma república chamada ‘Canecão’ e os moradores fizeram um concurso para escolher um nome de mulher para mim. Aí ganhou Madalena. Eu gostei e ficou o nome”, contou na época da eleição.

No início de 2016, Madalena pediu afastamento da Câmara por motivos de saúde. Ela informou ao G1, à época, que teve câncer de próstata. O primeiro suplente, Gilmar Tano (PSDB), assumiu o posto interinamente.

Nas eleições seguintes, ainda em 2016, Madalena desistiu da candidatura à reeleição na Câmara de Piracicaba. A decisão foi informada por meio de carta, enviada à presidência do partido tucano. Ao G1, a parlamentar apontou problemas de saúde e agressões racistas e homofóbicas sofridas nas redes sociais durante a gestão no Legislativo como alguns dos motivos para não continuar na carreira política.

“Para mim tanto faz a maneira como me chamam. Quando eu me olho no espelho, vejo um homem de muita coragem. Vou usar terno e gravata na posse e quando precisar durante as reuniões. Ainda não sei se vou usar meus lenços ou fazer tranças no cabelo, mas vou continuar a ser a mesma Madalena de sempre”, disse à época enquanto escolhia o modelo para a posse.

__ __ __

Foto: Fernanda Zanetti/G1/Arquivo

Por G1 Piracicaba e Região